
“Gostava de te ver feliz.”
“E quando é que eu alguma vez fui feliz?”
Silêncio. Imenso.
Há coisas que não se dizem. Primeiro, porque há segredos que jamais se partilham. Depois, porque quem o ouve pode não entender e pedir uma explicação que disseque qualquer sentimento original. E por fim, porque poderá não ser a verdade. No fundo limitamo-nos ao dia a dia, mesmo que olhemos para o passado com regularidade. Se atravessamos um bom momento, até as coisas más do antigamente parecem ter um sabor especial. Dizemos, foi mau mas levou-me onde estou hoje. Se vivemos num sofrimento que começa a desenhar-se perpétuo, nada do que passou tem brilho. Borramos a carvão todas as memórias. Nem sequer sentimos saudades dos velhos eus que os anos viram passar. Todos foram morrendo deixando apenas pó negro que nos cega.
O meu olhar era desafiante ao mesmo tempo que mordia a língua. Era uma interrogação difícil de se fazer, especialmente se o comentário feito até tinha boa intenção. A mensagem era clara: A realidade é esta, aceita-a, e jamais te lembres de ter pena de mim. A pena oferece-se a quem dela precisa e merece. Guarda-a para aqueles cuja má sorte lhes debilita a vida. Aqui, será apenas desperdício. Não sabias? Sou a rainha do desperdício. Já deitei fora tanta coisa que valia a pena enquanto guardava a fruta podre. Ririas se soubesses. Tenho prazeres perversos e já não sei viver sem eles, como o de entregar o melhor de mim a quem apenas o vê como uma coisa boa onde limpar os pés. Não me contento com esboços. Prefiro o desenho verdadeiro mesmo que não seja nada bonito. Pelo menos contemplei-o antes de o tempo e o aborrecimento o destruírem. Tudo ou nada. Promessas infinitas têm o sabor do fel. O bolo com tão bom aspecto e que nos dá vómitos à primeira garfada.
A minha memória fotográfica e sensitiva vasculham tudo o que foi sendo armazenado e durante minutos penosamente curtos, revejo os momentos com que a vida me marcou. Nem tudo foi muito mau. Mas nada foi muito bom. Simplesmente foi. Aconteceu. E o que restou, decidi moldar à minha maneira. Já morri tantas vezes na praia, que pedi a uma rocha para guardar-me o lugar.
Afasta de mim essa tua felicidade. Só podes ser uma aberração. Ninguém se sente assim 24 horas por dia. Presumo que tal como a infelicidade, a felicidade não se sinta a cada momento. Torna-se um hábito como respirarmos. De vez em quando recebemos uns empurrões que nos fazem perceber qual o prato da balança que nos acomoda. O infeliz é-o por hábito. O feliz é-o por não saber ser outra coisa. Não invejo a tua felicidade. Aliás, nunca fui de invejar nada. Nem sei porquê! Mais um defeito de fabrico que o tempo não remendou. Mas tenho de confessar que me irrita. Se calhar nem sabes que o és, limitas-te a viver a vida, mas quem te vê e quem te ouve sabe que és feliz. Não o conseguirias esconder nem que o tentasses. Não me custa saber que há quem seja feliz, muito pelo contrário. Ainda bem. Mas dói-me olhar para o outro lado da balança e ver que, por vezes, o prato contrário fica tão próximo que consigo tocar-lhe com a ponta dos dedos. Mas a âncora que tenho dentro do peito mantém-me firme e os pés nem vacilam. Sempre quis os pés bem assentes no chão. Agora deixei de conseguir caminhar. Olho noutra direcção, desenho um sorriso e preparo-me para outro dia. Nada disto é novo, pergunto-me porque será que ainda não me habituei.
Silêncio. Imenso. Sempre."