"Perguntas-te… o que será o princípio do fim?... e o fim do princípio?... Sentes que conheces qualquer um destes pontos de partida, mas não te recordas como. Estradas perpendiculares em cujo cruzamento terás de tomar uma decisão. Caminhar para o fim ou para o princípio?Sentas-te no cruzamento e pensas na tua existência e no que fizeste dela. Apercebes-te que a morte que sentes dentro de ti é real. A imaginação abandonou o barco em que navegas há muito tempo e os sonhos passaram a ser preenchidos por pequenos conjuntos vazios.
Fechas os olhos com força e decalcas todos os passos que deste. E de súbito a verdade apresenta-se livre de todas as cortinas que teimavam em escondê-la. Tantas vezes olhaste naquela direcção e ela nunca se apresentou. Algures pelo caminho deixaste-te morrer. Ofereceste ao mundo que te rodeia a capacidade para te destruir. A tua falta de egoísmo coloca-te sempre em último lugar. A brisa fria e cruel da verdade faz-te abrir os olhos e mirar as estradas que podes percorrer. Começar de novo? Dar a caminhada por concluída? A capacidade que possuis para te levantar sempre que cais é superior àquilo que imaginavas, pois não foram os tropeções que deste que te destruíram. Mal ou bem sempre conseguiste sobreviver a tudo, até ao dia em que te apercebeste daquilo que te recusavas a ver. Não foi a morte de um ente querido que te matou. Não foi a traição que te matou. Não foi o amor não correspondido que te matou. Não foi a desilusão que te matou. Foi a indiferença que te cortou as asas e te mostrou que nunca soubeste voar. Sempre foste invisível. Passaste a ser confundível com o pano de fundo. Nunca desejaste destaque mas nunca esperaste tanto desprezo. A tua invisibilidade cegou-te e já não te vês. A amostra de vida que tiveste não passou de uma série de vislumbres que decidiste complementar com a tua imaginação. Vês o mundo através de uma janela porque desististe de bater à porta. Sobrevives na periferia da vida. Sabes que lá dentro nunca houve lugar para ti.
Ninguém vê. Partiste os espelhos à tua volta e enterraste com eles toda e qualquer vaidade. Castigas o corpo desejando intimamente que ele sucumba ao cansaço. Acordas de manhã sabendo que se desaparecesses naquele momento ninguém notaria. Arrastas-te para o trabalho mesmo que não te apeteça ver ninguém, porque o teu senso de responsabilidade injecta-te com a força que te obriga a mexer. Ao fim do dia gatinhas até casa. Pelo caminho escondes os olhos com livros e os ouvidos com música. Preferes ignorar o que te rodeia do que constatar mais uma vez que o que te rodeia te ignora. O mundo esqueceu-se de te colocar na sua engrenagem e tu já não queres aprender. Deixaste de esperar coisa alguma. Limitas-te a riscar os dias no calendário como quem faz palavras cruzadas.
Perdeste as armas para combater a solidão. Ela sempre lá esteve, corroendo-te as defesas, mesmo quando te recusavas a vê-la. Hoje em dia já não te consegues separar dela. Faz parte de ti. Já não consegues disfarçar a forma como te corrói a alma. Não respiras sem o seu consentimento.
Em criança quiseste mudar o mundo. Cresceste com a convicção de que tinhas algo para lhe oferecer. No fundo, pouco lhe deste… e nada mudou… O mundo não sabe que existes. Sempre preferiste os caminhos pouco iluminados. Limitaste-te a caminhar pela estrada que te pareceu melhor na altura. Não questionas as tuas escolhas, apenas esperas que deixem de te sufocar. Aprendes a viver com a dor e deixas de a combater. Já sabes reconhecer as causas perdidas e todos os seus vencidos anunciados e vencedores sem categoria.
Olhas à volta. Sabes a resposta ao dilema. No fundo sempre soubeste onde a tua caminhada te levaria… houve lições que aprendeste cedo demais e se ainda hoje repetes erros é porque gostas do sabor do sangue quando cais no chão pedregoso e sujo que resolveste trilhar… o caminho é sempre o mesmo… e cansa percorrê-lo… até lá há sempre o princípio do fim do princípio… e a escolha de um ponto de chegada…"
“Sinto-me tão isolado que sinto a distância entre mim e o meu fato.”
Bernardo Soares


